O Banco Digimais, instituição digital controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, vive o momento mais crítico de sua história. Estimativas de mercado, divulgadas pela revista Piauí e corroboradas por fontes do setor financeiro, apontam que o patrimônio líquido da instituição está negativo em cerca de R$ 8,5 bilhões. O rombo bilionário colocou o banco sob forte vigilância do Banco Central (BC) e do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que acompanham de perto a deterioração das contas.
O prejuízo acumulado ganhou contornos ainda mais graves com a crise deflagrada pela liquidação extrajudicial do Banco Master, em novembro de 2025. O Digimais está envolvido em uma disputa judicial que pode representar um calote adicional de quase R$ 500 milhões. Um dos sócios da instituição, o empresário Roberto Campos Marinho Filho, cobra do banco a recompra de papéis de fundos de investimento (FIDC EXP 1) lastreados em créditos de empresas ligadas ao Master, à Reag e à Fictor — ativos que perderam valor drasticamente após as investigações e a intervenção do BC. O Digimais contesta a obrigação, mas o processo judicial aumenta a pressão sobre o caixa da instituição.
Em 2025, o banco já registrava prejuízos operacionais expressivos. Até setembro, o resultado negativo chegava a R$ 250 milhões, segundo dados do IF.Data do Banco Central. Sem os aportes realizados pelo controlador, o Digimais teria entrado em regime de intervenção há meses. Entre 2022 e 2024, Edir Macedo injetou cerca de R$ 350 milhões. Em dezembro de 2025, foi feito um aporte adicional de R$ 250 milhões, aprovado em assembleia e destinado a cumprir exigências do regulador. O objetivo era reforçar o índice de Basileia e preparar o terreno para uma eventual venda.
Apesar dos reforços, a instituição continua com capitalização frágil. O Banco Central já cobrou mudanças na gestão e reforço de capital. Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, assumiu o comando com a missão de reestruturar a operação, focando em crédito consignado e financiamento de veículos. Fontes do mercado afirmam que o BC monitora a qualidade dos ativos, com suspeitas de superavaliação de carteiras de crédito consignado e possíveis irregularidades contábeis que teriam mascarado o tamanho real do rombo.
Nos bastidores, cresce a discussão sobre as saídas possíveis. A venda do controle — tentada sem sucesso no ano passado, com interessadas como o Nubank e o grupo Ambipar — foi prejudicada pela crise do Master. Agora, segundo relatos da Piauí, o FGC estuda um cenário em que assumiria cerca de 70% do rombo, cabendo ao controlador os 30% restantes. A liquidação extrajudicial não está descartada, especialmente após o BC ter decretado a mesma medida para o Master e, mais recentemente, para o Banco Pleno.
Até o momento, não há decreto oficial de intervenção ou liquidação. O Digimais segue autorizado a operar normalmente, sob supervisão rigorosa do regulador. Para os clientes, o principal ponto de atenção é a proteção do FGC: depósitos e investimentos como CDBs estão garantidos até o limite de R$ 250 mil por CPF por instituição, conforme as regras do fundo.
O caso Digimais reforça o alerta do Banco Central sobre a fragilidade de algumas instituições menores e digitais, especialmente aquelas expostas ao segmento de crédito estruturado. Analistas do mercado afirmam que o desfecho da crise dependerá da capacidade do controlador de injetar mais recursos ou de encontrar um comprador disposto a assumir o passivo. Enquanto isso, o banco permanece no centro das atenções do sistema financeiro brasileiro.
